Viver na cidade, em Quarteira

Adoro viver em Quarteira. É verdade que tenho saudades de Lisboa. Dei por mim há dias feita histérica a agradecer a uns amigos por me deixarem ouvir o som do tabuleiro da ponte 25 de Abril, em Lisboa, enquanto falávamos ao telefone. Adoro a serra, o H. diz que me transformo quando lá vou, mas continuo a ser uma mulher de cidade. Quero envelhecer numa cidade, esta de agora ou qualquer outra pela qual me apaixone entretanto.

Quarteira é a minha cidade agora. É uma cidade muito pequena em tamanho, mas gigante na paisagem humana. A chusma que esta cidade aguenta principalmente no Verão?! Enorme! E nós aqui em casa adoramos o anonimato que nos proporciona. Ninguém se mete na vidinha de ninguém. Somos felizes e estamos saudáveis, todos nós, os quatro. Com a praia a 500m, todo o ano.

Há tempos estivemos com as cachopas em Sevilha. Dois dias. Banho de cidade grande, de metro, de autocarro, de parques e monumentos maravilhosos; banho de outra língua, de outra comida e uma tarde de banhos refrescantes num parque aquático fabuloso, com uns baldes mágicos.
Momentos memoráveis de infância, a construir personalidades interessantes, interessadas e pensantes.

Há coisas muito castiças em Quarteira. Como os guarda sóis espetados todo o Verão no mesmo sítio, no areal imenso. A praia a emoldurar a cidade. Vilamoura cosmopolita, que também é Quarteira. E depois há situações que nos fazem perder a cabeça, dependendo do nosso estado de espírito. Hoje tivemos uma memorável, na minha selva favorita: a escola, neste caso a sede do agrupamento  das minhas filhas.

Estava eu descansadíssima a tirar fotografia do horário da M. e vem uma funcionária dizer-me que não posso fazer isso – não há vez que não se veja pais de telemóvel em riste junto às vitrines – e depois aproxima-se de nós (eu, a minha filha M. e o H.) e diz mais baixo “temos um novo director que está aí no gabinete, tem de esperar que ele vá embora.”

Eu confesso que esperar 20 anos anos para sentir as borboletas no estômago como que por ser apanhada pelo Pe. Homero ou o prof. Fernando ao estar na marmelada nas traseiras do gimnodesportivo dos Salesianos (not!), foi desapontante, ou pelo menos concretizou-se numa experiência de adolescência demasiado tardia. Afinal, já tenho 36 anos, e esta cena passou-se neste ano de Nosso Senhor JC 2017 numa escola da cidade onde vivo…

Eu sorri para a funcionária, e continuei a configurar o telemóvel para tirar a fotografia ao raio do horário; tinha ainda a J. para ir buscar ao Jardim de Infância e uma pilha de trabalho à minha espera. Pois a alminha continua a dar-me a descasca típica para-a-adolescente-insolente: “- Mas você não ouviu nada do que eu disse?!”

Enfim, eu ouvir, até ouvi… ouvi isto:

E entretanto o novo director que obviamente se apercebeu do que se estava a passar cumprimentou-me,  e continuou com a sua vidinha corredor fora. O H. ainda tentou chamar a senhora à razão, mas como a M. estava connosco e a páginas tantas a conversa começou a azedar e tornar-se imprópria para a nossa filha, virámos costas e viemos embora.

A funcionária pelos vistos não percebeu o alcance da regra “não são permitidas fotografias no recinto escolar, nem a documentos oficiais afixados nas vitrines, pela salvaguarda do interesse e direito à privacidade dos alunos do agrupamento”, nem me compete a mim explicar. Aprendi com a vida a não ser a única a cumprir regras que ninguém cumpre, arcando com as consequências que me são direccionadas, no planeta em que vivemos.

Na meia hora seguinte tive de explicar à minha filha de sete anos o porquê de não podermos fotografar o horário que toda a gente fotografa e que não é pelo director estar a ver que não o podemos fazer; que não se pode tirar coisas sem autorização, vulgo roubar, porque o mal não é o polícia estar a ver… Entre outros tantos exemplos de vida real e de associação de ideias muito perigosa para uma personalidade em construção.

Enfim, mais um grande momento de deseducação básica, proporcionado pela escola local. E um grande momento de escola de vida.