Viajar: sobre as distâncias e os tempos

Hoje em dia é praticamente impossível não viajar. Está na moda, é uma experiência de enriquecimento pessoal obrigatória. Nem se percebe muito bem a resistência de certas pessoas a viajar. A inércia e o comodismo tomam conta do ser humano e abrem caminho ao preconceito.Vou iniciar aqui no blog uma nova temática, a da viagem. O Google Analytics é capaz de gostar e eu também preciso de arrumar alguns pensamentos, com a ajuda dos meus seguidores. A mala vai ser pequena, mas a distância vai ser enorme. E não será certamente para a mala que vou precisar de ajuda. Para a distância, sim.Portanto, vou directa ao assunto: vou a Moçambique num futuro muito próximo, tipo mês de Outubro! Sim, já! E sim, já pensei numa série de factores. Nomeadamente nas minhas filhas e no meu marido, que cá ficam. Quem não me conhece pode atirar as pedras virtuais que bem lhe apetecer, mas ninguém se vai sentir abandonado, nem constrangido no nosso núcleo familiar e portanto não sou o alvo certo para essas ditas “pedras”. Vou encurtar distâncias com duas pessoas que me são muito caras – os meus pais – e momentaneamente criar uma distância física com as minhas filhas e o meu marido. Longe de ser um retiro de mãe, que agora está na moda, é algo que “já devia ter feito há muito tempo” (palavras do meu marido, não minhas). Moçambique faz parte da minha realidade familiar. A minha mãe nasceu lá e o meu pai foi para lá pequeno. Os amigos de família, a própria família e as histórias familiares passaram por lá e pela realidade da descolonização. Até na minha curta experiência profissional recente de professora de piano tive uma aluna que lá viveu. Nestes meus 37 anos de existência será a viagem mais distante e confesso que o tempo de avião desperta em mim alguns resquícios claustrofóbicos. E é só uma paisagem familiar. Ou não. Com grande pena dos meus pais, vou apenas por duas semanas. Tenho insistido que as aventuras turísticas terão de ficar para outra viagem, mais acompanhada, mas sei que mesmo assim vou ser um bocadinho mimada com o Kruger Park e umas praias paradisíacas. Por enquanto sinto-me uma parola, que é uma situação que detesto. Sempre fui Maria-Sabichona. Portanto, já tratei do passaporte e o próximo passo é tratar do visto e da viagem (numa ordem diferente, acho eu). E tratar do visto vai abrir em mim uma nova perspectiva sobre as distâncias. Que já começou: tenho de ir a Lisboa (300Km) tratar disso. Considero-me uma ave rara, modéstia à parte. Ir a pé e voltar até Vilamoura, e fazer as visitas aos apartamentos a pé, pelas ruas de Quarteira é um evento constante do meu plano semanal. Ter de ir a Lisboa para tratar do meu visto é que já me parece um bocado surreal. Ou não, desde a última conversa com a minha mãe:

– Mas traz pelo menos o fato de banho, que queremos levar-te à praia! – responde-me a minha mãe já conformada com a minha curta estadia.
– Sim, mãe.
– É que é muito perto: são só 200Km.

E a imensidão daquele país deu-me um chapadão. Estou muito na expectativa do que de lá vou trazer: segundo a médica da consulta do viajante, eventualmente trarei malária se não tiver cuidado; se tiver de ir à urgência cá e Portugal, já em 2019 ou 2021, porque parti um dedo do pé, tenho de avisar que estive em Moçambique, por causa do quê? DA MALÁRIA… Mas pelo que já observei pela pequena humanidade que me rodeia e que por lá passou há algo muito mais contagioso do que a malária naquele país: uma paixão avassaladora por aquela terra. E estou convencida que esta será a primeira de muitas visitas. Portanto, na próxima semana vou só até ali à “praia” tratar do meu visto para Moçambique. Há-de ser praticamente a mesma coisa que descer a rua e atravessar a avenida.