Sou mãe de uma vegetariana

Há anos que a ML tem tendência para uma alimentação vegetariana. No refeitório da escola do primeiro ciclo, era a criança que comia a sopa e exigia a salada sem tempero. Hoje, aos 12, é a criança magra mas cheia de músculos, que repete a comida e que de volta e meia ouve dos adultos no refeitório da escola: “mas aonde é que tu pões essa comida toda?!”

Aos quase três anos de idade, já nos tínhamos apercebido que havia ali um traço de personalidade a crescer, porque se distinguia da maioria dos colegas da creche, de uma forma única. Num convívio de pais, tivemos a prova: a ML ficou zangada com os amigos cuja diversão naquela tarde era destruir o carreiro de formigas que serpenteava pelo pátio; a partir dali, não quis brincar mais com eles. Na altura, ela era apenas uma criança que praticamente só conhecia a cidade, uma vez que vivíamos até essa altura no nosso apartamento, em Lisboa e a vida era casa-creche, creche-casa. Tão pequena e não conseguia entender o porquê dos colegas se divertirem a pisar as formigas. Mas com a nossa mudança para o Algarve, a exposição à terra, à horta, ao pomar e aos bichos da terra foi amadurecendo aos poucos, e aprendendo a perceber as relações mais ou menos positivas de algumas espécies com as plantações, mas sempre a por em causa o recurso ao extermínio por necessidade ou qualquer outra razão. Recordando esses tempos, confesso que gozo um pouco com ela e com a dificuldade que tem em lidar com aranhas, mas sempre acompanhado com um “Não a matem, por favor!”. Na essência da ML, está presente um núcleo eminentemente vegan, que acredito se venha a revelar cada vez mais forte, com o avançar dos anos.

Com a entrada para o segundo ciclo, demos-lhe a possibilidade de aderir à alimentação vegetariana na escola e em casa, com o devido acompanhamento especializado, e cumprindo algumas regras da alimentação ovo-lacto-vegetariana. É claro que ela aceitou imediatamente, apesar de pouco tempo depois ter deixado cair o “lacto”. O ovo será certamente o próximo a cair, já que de vez em quando lá a apanho a esfarelar um bocado de tofu para uma frigideira e a temperar com cúrcuma, a acompanhar as tostas integrais (que eu juro que me sabem a cartão canelado, porque parecem cartão canelado) ou de milho, para um lanchinho de meio da tarde.

Imagem com azafrão (corante), cúrcuma (corante natural, antioxidante e cicatrizante) e caril (tempero para diversos pratos) em pó, em exposição para venda a granel.
Imagem de Alice_Alphabet por Pixabay

E como “quem sai aos seus não degenera” e filha de refilona, refilona é, continua a fazer as perguntas desconcertantes às pessoas do refeitório da escola, como “onde está a proteína [vegetal]?” em alternativa ao “porque é que não me pôs tofu no prato?”, “Se não me serviu comida suficiente antes, porque é que não me deixa repetir!?”, “Uns feijões ficavam mesmo bem aqui!”

Os colegas ficam mal-dispostos de a ver comer vegetais e “essas coisas” ao almoço, mas ela lida bem com os comentários “ML, não tens nojo de comer isso? Estás a deixar-me enjoada”. Ao final do dia conta-me com requintes de malandreca cada careta e comentário dos colegas e eu encho-me de orgulho.

Onde está a graça desta história? É que pelo menos a mães de uma das colegas já me perguntou como é que eu fiz isto acontecer.

Eu?!

Se a opção é dela – e que excelente opção – porque é que hei-de eu colher os louros? Sou mãe de uma vegetariana, cheia de orgulho e vaidade. Tal mãe, tal filha.

Molho de espargos e tomates cherry em rama
Espargos e tomates cherry: dois dos favoritos da ML.
Imagem de RitaE por Pixabay 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *