Problemas de comunicação: família (parte I)

Eis o que se passa: eu tenho um problema de excesso de comunicação. Comunico muita coisa, mas parece que não consigo comunicar nada. Ao final do dia, a maior parte das vezes, a minha almofada devolve-me o seguinte pensamento: ninguém te ouve.

Que toda gente com filhos sabe que eles não nos ouvem, nada de novo. Não vale a pena contabilizar as vezes que dizemos para calçarem os sapatos à saída de casa, para arrumarem a mochila da escola ou que a televisão é para ser desligada JÁ. É um raio de um ataque atómico ao nosso juízo: a gente diz blablablá e eles “- Are you talk’in to me?” E portanto: coitadinhas das criancinhas de hoje em dia, que vivem a vida apressada dos pais, mas o raio dos putos metem-se nos nossos nervos. E nós ouvimos TUDO o que elas dizem, como umas esponjas. Mas actualmente contam-nos a história de que o cérebro delas é que funciona como uma esponja, o que tem o que se lhe diga, porque um dia destes descobre-se que o processamento auditivo faz-se noutro órgão, tipo nos pés. E eu ainda vou na infância das minhas filhas, portanto tremo só de pensar na adolescência; de duas cachopas!!!

Os meus pais sempre me ouviram. Que paciência coitados: sou filha única e só havia dois canais de televisão. Com a minha entrada na adolescência (obviamente) a comunicação ficou comprometida. Actualmente as conversas WhatsApp são longas, mas nem sempre conseguimos comunicar o que realmente importa. Não é por mal, todos temos os nossos desafios. O canal de comunicação parental ainda funciona; já esteve mal sintonizado, mas foi resolvido. Pelo menos para lá; para cá, faltam uns ajustes.

Os meus sogros, meus pais por afinidade, com todas as suas virtudes e deslizes humanos, ouvem-me. Nem sempre me compreendem, mas fazem de conta que sim. Nunca imaginaram que teriam na família uma ave rara como eu, que lhes entrou pela família adentro, lhes escancarou a vida, e até mudou uns quantos hábitos. A minha experiência de família sempre foi muito mais alargada do que a do núcleo pais-filho e eu trouxe isso para cá. Não trouxe muita bagagem quando me mudei para o Algarve, mas essa característica veio comigo: ser barulhenta.

Os tios e primos por afinidade e de sangue são vítimas do alta-voz do meu carro. Ligo-lhes amiúde como se nos tivéssemos visto ontem, mas a comunicação é via telefone. Sim, tenho família com quem não partilho laços de sangue: tive uma avó emprestada e continuo a ter primos e até irmãos e irmãs emprestadas. 

A sorte deles é que de Loulé a Quarteira são quinze minutos de carro.