Problemas de comunicação: desconhecidos (parte II)

Desde que me lembro sempre fui confidente de muita gente. Pessoas que nem conhecia, que se sentavam ao meu lado no autocarro ou no comboio e contavam-me as suas histórias de vida. Já na vida profissional a coisa continuou, porque algo falhou na minha adolescência, eu acho. Mas agora já aprendi que a tão aclamada empatia pode ser um murro no estômago, se mal gerida, e eu não sou boa gestora.

Mesmo no meu anterior projecto, eu sabia dos desafios do dia a dia de cada cliente e de cada colega de trabalho. A paisagem humana aqui no Algarve é absolutamente fabulosa, com gente de todos os lados e com todo o tipo de histórias. Ao fim e ao cabo tenho me cruzado com pouca gente que realmente é de cá. E a solidão, principal responsável pela ausência de canais de comunicação entre muitos, é desafiante, numa terra de abundância e de muita pobreza. As redes sociais são uma autêntica arena de Coliseu de Roma, nem vale a pena ir por aí.
Sempre ouvi o que esses desconhecidos me contavam. E agora que olho para trás sinto-me um autêntico aterro sanitário mental, porque não consigo desligar-me dos problemas das pessoas. Não consegui até agora estar-me nas tintas para a vida dos outros. Esse canal de comunicação que eu abria sempre me fez sofrer em demasia, porque muitas vezes bastava ao desconhecido falar e arrumar as ideias, por as coisas em perspectiva e a solução surgia. Da vez seguinte que nos voltássemos a cruzar invariavelmente ouvia “- Ah menina, fez-me tão bem falar consigo!” 

Há muitos anos atrás, duas grandes senhoras ajeitaram-me o caminho. Desisti do curso de Biologia para ir para outro na área da saúde. Conheciam-me, melhor que ninguém  e lá me encaminharam para a área da investigação em artes, chamemos-lhe assim. E eu fui tão feliz durante bastante tempo, porque elas me ajudaram a encontrar o caminho. Devo-lhes a felicidade que apesar dos obstáculos das escolhas mal geridas ainda encontro na minha família. Abandonei a investigação em artes, não porque fosse má no que fazia, mas porque estávamos a entrar em período de crise e era preciso agir.

Não entendo a minha natureza humana. Sinto-me uma coisa presa dentro de outra. Tipo boneca Matrioska. Sinto muito todas as coisas que me rodeiam e adivinho desfechos. E falo muito sozinha, como se tivesse a defender-me dos meus agressores. E sinto-me frágil, mas sou forte. Porque aprendi no Algarve que mais vale cantar e dar uma gargalhada do que chorar e desaparecer. Mais vale ignorar a ignorância dos outros e viver num mundo alternativo, porque aqui, ninguém me ouve.

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