Pensamentos soltos sobre educação e viagens

Vou já avisando que este será provavelmente o artigo mais esquizofrénico que escrevi até agora. Desistam já se estão à espera de algo certinho e direitinho, com assuntos bem encadeados ou conclusões inequívocas sobre a parentalidade. Sou uma mãe orgulhosa. Tenho duas filhas saudáveis, independentes e felizes que só lhes falta uma coisa: viajar. Vejo com alguma inveja (sim, esse pecado humano de que padeço) os artigos nas redes sociais de alguns amigos que levam os filhos para resorts magníficos e passam por parques temáticos noutros continentes… E sonho com o dia em que as minhas filhas irão fazer o passaporte para começar a viajar para outros continentes. A educação anda mal e eu acredito piamente que a única solução é viajar. Por isso, enquanto não vamos tendo outra possibilidade, vamos viajando aqui no Algarve. No fim de semana passado fomos a Monchique e foi fabuloso. Para mim, foi como um regresso a Sintra de há 20 anos; uma estância termal linda, mas sem os travesseiros (da Piriquita)…
Ansiedade pré-dieta, peço desculpa.   O interior algarvio é lindo. E Monchique tem um encanto especial. É um verde escuro em altura, com alguns palacetes lá perdidos entre montes e linhas de água que se Lord Byron por lá tivesse passado, também se iria encantar. Interessante esta questão das pessoas se encantarem por lugares… Se quiserem comprar por lá um palacete todo catita é só me mandarem uma mensagem, OK? Monchique é uma vila viva com cafés e lojas muito convidativas e Beds&Breakfast muito apetecíveis. Pois bem, nem Sintra tem termas, nem Monchique tem Piriquita. E resumindo e concluindo, o Algarve é realmente muito mais que praia: para lá irmos a partir de casa é só mesmo descer a rua, atravessar a avenida e por os pés na areia. Eu creio que é este ar da praia que respiramos que nos faz ser tão saudáveis. Sem descurar a praia, essa fonte de saúde inesgotável, cá no Algarve temos ainda muito por descobrir, com termas e sem elas.
Facto interessante dos relatos deste nosso passeio a Monchique é que o cérebro nos fazia dizer “na nossa ida a Moçambique…” Esquizofrénico q.b.? Ainda não? Avante. A educação no geral vai mal. Como mãe opiniosa tenho os meus preconceitos com o que se passa na escola (já o tinha dito aqui) e sempre que as deixo na escola dou-lhes um beijo e uma ordem:

“diverte-te!”

Sinto uma necessidade visceral de o dizer, porque acho que a escola não tem de ser uma obrigação, uma seca. Na semana passada saíram os malditos rankings nacionais das escolas. E as que existem aqui na zona de Quarteira, privadas ou públicas, não ficaram nada bem na fotografia. A nós, os adultos cá de casa, custa a perceber as distâncias a percorrer ou as mensalidades milionárias para colocar as cachopas nas que tiveram melhores resultados na região. Por isso, para os próximos anos vão continuar na escola onde estão, onde o melting pot tem contornos deliciosos dignos da inocência infantil. Na escola, elas devem cumprir a maior obrigação de uma criança: divertir-se e saber estar no mundo. Só assim estarão com o mindset certo para aprender as matérias escolares e manterem-se motivadas para continuar a aprender o que a vida tiver para lhes ensinar. E por enquanto, nós adultos continuaremos a tentar descobrir actividades fora da escola (vulgo extra-curriculares) que preencham lacunas fundamentais. Infelizmente, até agora só a natação correspondeu às expectativas.
Enfim: é o Algarve ao qual os locais têm direito.

Eu pertenço a uns quantos grupos de Facebook dedicados à educação. Infelizmente tive uma experiência empreendedora desastrosa na área e limito-me a observar atentamente as discussões mais ou menos irrealistas e fundamentalistas que vão surgindo nalguns grupos dedicados à educação. Vou me mantendo a par do que se vai passando nas escolas e quando as discussões tomam contornos de folhetim, tipo Correio da Manhã, saio do grupo; não tenho pachorra para virgens ofendidas de classes profissionais, nem pais galinhas que acham que cada decisão académica é uma ameaça à integridade física e moral do seu petiz. Mas há um grupo muito interessante e abrangente de gente com a mente arejada que hoje me deu motivação para escrever este artigo. O âmbito geográfico do grupo ultrapassa a fronteira nacional e um membro residente em Moçambique partilhou uma fotografia supostamente de uma escola daquele país, onde as crianças estavam sentadas em pedras alinhadas num chão de terra batida, sem mesas, cadeiras ou material escolar à vista. Essa fotografia fez-me correr uma lágrima e relembrar um dia na minha recente viagem aquele país.

(Não partilho a fotografia em questão, porque não era minha e tinha crianças envolvidas. Sim, também sofro de alguns fundamentalismos) Uma das províncias moçambicanas pela qual passei com os meus pais em Novembro foi Gaza. O nosso destino era o actual Chókwè, antiga vila Trigo de Morais. Essa vila era o destino dos colonos que deixavam para trás uma pobreza indecente das tantas Aldeias da Roupa Branca dessa portugalidade salazarenta, levados na 3ª classe dos navios da Companhia Nacional da Navegação e que eram descarregados nas colónias ultramarinas para pagar pela nova oportunidade de vida  “dada” pelo Estado Novo com o fruto do seu trabalho. Numa qualquer leva de colonos seguiram os meus avós paternos, o meu pai e alguns dos meus tios. Também da região de Vila Flor, como a minha família, tinha saído umas décadas antes o Eng. António Trigo de Morais, responsável pelo aproveitamento agrícola do rio Limpopo, e pela construção de uma rede extraordinária de diques e canais que alimentavam milhares de hectares de área agrícola do colonato do Limpopo, e de onde se retiravam toneladas de arroz por temporada. Apesar de ter regressado à metrópole e continuado obra nomeadamente na ilha da Madeira, foi no cemitério da Aldeia da Barragem, do Colonato do Limpopo que quis ser enterrado, depois de morto. Trigo de Morais foi obviamente mais um dos muitos enamorados sem cura por aquele país…Quase a chegar ao Chókwè, parámos numa estação de serviço e aí eu percebi que por alguma razão quando alguém já não é vivo as pessoas não dizem que esse alguém morreu. Passo a explicar: perguntámos por um conhecido da família residente naquela zona que estava doente e de que já não havia notícias há algum tempo; a resposta não se fez tardar: “o Sr. A. já não existe.” Confesso que demorei a perceber: basicamente o Sr. A. tinha morrido; mas o hábito local não é dizer que morreu, é dizer que já não existe. Bastante terra-a-terra, não é?Seguimos viagem à procura da casa da família do Sr. A. (viúva, filha e netos) e lá a encontrámos. Eu e o meu pai entrámos nos portões da casa e aí eu apercebi-me de uma realidade que só tinha visto filtrada pelo vidro da televisão e da porta do carro: ninguém tinha sapatos. Chegámos numa hora em que estavam sentados no chão, com uma pequenina com pouco mais de uma ano a comer o que me pareceu ser xima. Trocámos alguns minutos de conversa e continuámos a viagem, com destino à antiga aldeia do meu pai. Pelo caminho ele foi dizendo que já tinha feito várias tentativas para lá ir, mas com pouco ou nenhum sucesso porque o rio submergia frequentemente a estrada de acesso à cidade. Ou seja, a cidade fica isolada do resto do país, sempre que “apetece” ao rio Limpopo. Uma vez que os diques do Sr. Trigo de Morais já eram, o rio tem vontade própria.

Aviso na estação de comboios de Maputo a 08/11/2017. “Informação. Todos os comboios de passageiros com destino a Manhiça, Chókwè e Chicualacuala ficam cancelados devido a interdição da linha no Km 56+300, causado pelas chuvas até aviso contrário.” (Foto by Sílvia R. 08/11/2017)

À chegada à aldeia o meu pai parecia uma criança grande. Super orgulhoso de me mostrar a sua antiga escola, largou o carro e irrompeu por ali adentro, comigo atrás, cumprimentou o professor disse-lhe que tinha estudado ali e desatou a falar ao grupo de meninos que estavam a sair da escola. Entre algumas frases em changana e um português perfeito disse-lhes que tinham sempre de ouvir o professor e aprender tudo que ele lhes ensinava, para serem felizes num futuro país com melhores condições. Isto tudo dito sempre no registo festivo, bem-disposto e positivo que tanto admiro no meu pai. As gargalhadas e os gritos dos miúdos eram maravilhosos e aqueciam o coração.Pois bem, com os olhos de adulta de 36 anos sem memórias de outros tempos, eu vi a escola da tal fotografia. Vi quatro paredes quase totalmente brancas com uma porta (espero não a ter imaginado) e um chão imenso. Ao fundo da sala vi talvez três ou quatro mesas e cadeiras antigas, quem sabe se ainda do tempo das aulas do meu pai, em número claramente insuficiente para o número de crianças que estava a sair da sua aula aquando da nossa chegada. Estes meninos não tinham pedras onde se sentar. Apenas um futuro pela frente, e um professor sem achaques de consciência de classe ou sequer material didáctico condigno. No final do dia seguinte, algures num caminho de terra batida de 17 Km, um homem pediu-nos boleia. O meu pai parou e ele sentou-se ao lado da minha mãe, no banco de trás. Confesso que não memorizei o nome do nosso companheiro de viagem, mas ficou-me a profissão: professor. Durante a viagem foi falando da falta de investimento do governo moçambicano na educação, e no jogo de interesses em manter a maioria da população num estado generalizado de analfabetismo, promovendo assim a ignorância sobre a riqueza inesgotável do país, canalizada para os bolsos dos mesmos de sempre. E eu fiquei a pensar que tal como os grupos de crianças que fui observando ao longo da N1, também aquele professor fazia Km a pé, ou à boleia de desconhecidos para dar as suas aulas.  Anseio para que as minhas filhas possam começar a viajar rapidamente. E a aprender que a vida ultrapassa em muito as realidades das redes sociais, do youtube e dos canais Disney; e até mesmo da realidade cristalizada dos livros da escola. As imagens e mesmo as opiniões formadas a partir das partilhas orientadas pelos algoritmos, muitas vezes tiradas do contexto, são perigosas. Tal como a Aldeia da Roupa Branca, as realidades construídas dos resorts chocam-me, mas o meu “eu do conforto” e a mãe galinha que há em mim tendem a calar-me a consciência e a pensar que não nos irá fazer mal umas férias paradisíacas. Fiz esta viagem sozinha exactamente com medo de as expor a esta realidade crua da escola com as pedras alinhadas como bancos, talvez no Chókwè. Até quando as poderei manter na ignorância inocente da dura realidade? A educação vai mal… O que faz falta é viajar.
Não só às minhas filhas, mas ao resto da humanidade.