Escola de vida vs escolaridade obrigatória

Hoje li um artigo de um algarvio-natural-de-Lisboa e pai de duas princesas que deve ter a vida profissional num alvoroço desde o fim do segundo período. Não consigo escrever melhor sobre o assunto, até porque o senhor é jornalista e domina os meandros da comunicação bem melhor do que eu. O artigo é este aqui. E decidi colocar algumas notas pessoais em perspectiva. Para mim, ser mãe é passar os dias em loop na cena em que somos um cirurgião com o bisturi na mão e que só tem 10 segundos para tomar a decisão que pode ou não salvar uma vida. O que me consola é que sou mãe de dois seres humanos que com a bagagem da sua espécie, trazem uma infinita capacidade de se adaptarem e de desenvolverem ferramentas para serem felizes. E abraço esse loop diário com arrepios de orgulho cada vez que alguém me diz que elas são umas desenrascadas.  As minhas filhas estão ambas na escola pública. Tenho a minha opinião sobre as escolas privadas aqui do retângulo a sul, que se cheia de preconceitos ou não, é a minha. Até ao ano passado a M. e a J. estiveram no jardim de infância privado, portanto a cobiça não é uma das razões evocadas para preterir o ensino privado. Se iria ter os problemas das greves e afins resolvidos? Talvez sim, ou com os half-term e mid-term breaks não; não importa. Temos momentos memoráveis a explicar que dedos do meio não se mostram às pessoas, nem que dizer “what the fuck” é aceitável; e não tenho a certeza se teríamos direito a esta nuance educativa no privado (bias alert). Óbvio que repetem estes  e outros comportamentos, especialmente quando querem ligar aquele nosso botão da “paciência a 0%” ou o “olha para mim que eu sou tão engraçada e estou a testar os limites”. O problema maior é mesmo o da vida familiar. Aqueles cinco dias da semana em que elas vão à escola fazem mesmo muita falta para o equilíbrio mental a longo prazo. Especialmente desde a Páscoa, que é a altura de nos prepararmos profissionalmente para o Verão, com os primeiros testes e afinações da “máquina”. Já falei disso aqui. A experiência cá de casa é a de que todos os dias da semana são iguais, afinal de contas, quando nos mudámos para o Algarve fomos abrir uma loja num centro comercial. Entretanto, com as reviravoltas profissionais, cá estamos na hospitalidade, e sábado ou terça feira são exactamente a mesma coisa, profissionalmente. Poder contar com a escola, não como um depósito de crianças, mas como um lugar onde elas treinam as suas competências com profissionais devidamente qualificados, é satisfação de uma necessidade elementar para todos. Já para não falar na consistência no cumprimento de calendário e horário, em nome do bem-estar dos alunos e do equilíbrio familiar. No entanto para a M. a experiência escolar está a ser de uma dureza aflitiva. O choque com o tsunami académico deste primeiro ano foi brutal. E o meu coração de mãe até suspira de alívio ao perceber que este ano lectivo na prática já terminou. Desde Outubro do ano passado, a falta de interesse dela pelas tarefas académicas têm me deixado de coração nas mãos. A notória falta de preparação que trazia do Jardim de Infância tem sido o bode expiatório, por variadíssimas razões. A relação com a professora da cachopa não é fácil, porque as expectativas de parte a parte são muito elevadas. Ainda esta semana recebemos um recado na caderneta que etiquetámos de bulling contra pais e decidimos ignorar. Desculpamos a representante da classe profissional com o flagelo dos últimos anos sofrido pela dita. E apesar da natureza “difícil” da turma ou da gritaria constante de que a M. tanto fala, consistência não me parece que seja o problema desta professora. Aparentemente a matéria está toda dada. Já dissemos que somos a favor dos trabalhos de casa, e agora, no final do ano é que vem um recado que nós pais temos o dever de corrigir os trabalhos de casa com a criança. Vamos no segundo caderno A4 pautado cheio de cópias, ditados, números por extenso e agora é que a senhora doutora se lembra de escrever na caderneta da aluna que temos de corrigir os trabalhos, por um evento pontual de uma página A4  no meio de tantas outra devidamente corrigidas por nós. (-Oh cara doutora professora: Cure-se!)  Ups, afinal não ignorei, escrevi um post público sobre o assunto… E fui irónica… Tchiii…

Mas afinal, o que é que os nossos filhos vão fazer à escola?

Tenho pelo menos quinze anos disto pela frente – tenho duas filhas – e estou para ver o que vai acontecer nos próximos tempos. Nego-me a adoptar o papel da mamã sopeira a corrigir animadamente os TPCs com as  minhas filhas, pelas noites e fins de semana adentro. As horas quase infinitas passadas na escola trazem um price tag a dizer “obrigatório ensinar” e nós pais desta família cumprimos com o nosso papel no dito processo. Cá em casa tem havido vários discursos animados que começam sempre por um “podes ser quem tu quiseres” seguidos de umas quantas explicações exaustivas quanto às competências académicas que é preciso dominar. Não estamos a tentar criar déspotas porque damos o litro no que toca ao respeito pelos outros. E cá em casa, os TPCs são para irem feitos (e bem feitos!) para a escola, dentro do prazo. Acho que a escola de vida que deve ser a escolaridade obrigatória tem de ensinar também a criança a ser eficiente, pelo seu bem estar psicológico.

Ui, antes de ser mal interpretada, fica aqui escrito o que é para mim a eficiência neste contexto: se são 15 minutos de trabalhos de casa por dia, mandem 15 minutos de trabalhos de casa por dia, e não horas infinitas de ditados e contas! Não tiveram já isso durante o dia? Pois não, tiveram uma tarde a ver um filme com a animadora porque a senhora professora teve de ir a uma reunião… Ah é pontual: pois, também a única página de trabalhos de casa que não foram corrigidos! As reuniões não podem ter lugar fora dos horários lectivos??? Ai se trabalhassem no privado…Ups…  Não saber quais as consequências destes eventos a longo prazo na educação dos nossos filhos, é uma fonte de stresse dantesca.  Munimo-nos do todo o espírito animal de protecção da espécie quanto toca a eles, mas a nós, ninguém nos protege. Quando somos atacados pelos outros, enfiamos a carapuça e não há segundas oportunidades, o bisturi cortou a veia, matámos o paciente! Não há borracha que apague os nossos erros; as nossas falhas humanas ficaram por corrigir. Se os nossos filhos vão à escola é para aprenderem a viver e para serem felizes. Vão à escola para poderem mudar o que está mal no mundo e terem competências técnicas para melhorar o seu presente. Vão à escola para poderem adaptar-se às mudanças e ao evoluir da humanidade. Vão à escola não para ter uma profissão ou uma carreira, que no tempo deles já serão conceitos ultrapassados, mas para saber lidar com a realidade e serem felizes e saudáveis. Tenho amigos “funcionários públicos” e especialmente professores (!) que poderão ficar ofendidos com tudo o que escrevi, mas enquanto mãe só peço que ensinem às minhas filhas como agir perante a mudança. E deixem-se lá de greves mal marcadas que só passam uma má imagem de vocês mesmos!