A Medicina e o Algarve

Há umas semanas, um aluno perguntou-me como é que me licenciei em Ciências Musicais sem o Spotify nem o YouTube.
Ele vê-me com o Chromecast a passar-lhe autênticas pérolas no YouTube pelos olhos e ouvidos adentro e como miúdo brilhante que é ficou intrigado: como é que se fazia antigamente (ui). Fez-me logo pensar nas torres de CDs e de DVDs que tenho guardadas e não tenho como reproduzir. E nos livros e notas de programa. E nas Festas da Música no CCB e nos ensaios gerais das paixões na Gulbenkian, os ciclos das sonatas de Beethoven (não tenho nenhum casaco de peles no armário a cheirar a naftalina, lamento) entre outros eventos musicais únicos a que tive o privilégio de assistir, como a estreia moderna do Demofoonte no Palais Garnier, em 2009, com a orquestra Luigi Cherubini sob a direcção de Ricardo Mutti. Compositor?!…  Um problema mal resolvido de uma das minhas vidas passadas. Googlem se tiverem curiosidade, mas aviso que a lista é grandita. 

Recentemente conheci uma pessoa muito complicada, que mesmo sem uma licenciatura, acha que descobriu algo que vai mudar a Biologia. E que ainda por cima acha que vai enriquecer com a descoberta, com testes de quintal e banheira, qual biótopo nos Galápagos, a comprovar a sua teoria. Enquanto fingia ouvir os seu devaneios só conseguia pensar nos meus amigos ligados a centros de investigação a troco de quase nadas e demasiadas incertezas pessoais; mas que mesmo assim fazem ciência a sério, integrados em equipas de investigadores de topo, com recurso a literatura científica e protocolos estabelecidos na comunidade em que se inserem, escrutinados por comissões científicas e politiquices académicas de matar neurónios e motivações pessoais. Se há coisa importante que qualquer grau académico nos oferece com o canudo é a consciência da nossa finitude, acompanhada de uma humildade tremenda perante os eventos a que temos o privilégio de assistir ao longo da nossa vida, tendo sempre em mente a história e os avanços impares das nossas ciências. Sejam elas a Biologia ou as Ciências Musicais.

A ver se essa pessoa não concorre à Casa Branca, nas próximas eleições.
Infelizmente tem fortes hipóteses de ganhar:
egocentrismo, ignorância e desrespeito pelos outros tem de sobra.
Dei-lhe um conselho gratuito: “- concorra à universidade, uma licenciatura são apenas três anos.”

A Medicina é uma das ciências bem e mal amadas cá no burgo da humanidade. Só vou falar dela do ponto de vista de paciente e de fã de Anatomia de Grey. Em Março último houve um caso amplamente discutido na comunicação e redes sociais​, de uma criança que perdeu a vida por falta de uma vacina que não lhe foi administrada. No ano da tal récita de Demofoonte, estávamos nós em 2009, houve um celeuma medonho com a gripe A. Eu fiquei grávida nesse ano e ganhei automaticamente o meu lugar no grupo de risco da mal afamada gripe; a minha obstetra estava a passar por um mau bocado e estava completamente louca. Descobri nessa altura quanto o Algarve me fazia bem. Passei o meu quinto mês de gestação em Quarteira e foi maravilhoso. A  doutora ia tendo um colapso, porque as minhas férias foram em Agosto e a cidade fica sempre overcrowded nesse mês. Na altura mandou-me tomar ambas as vacinas da gripe; quando a confrontei uns meses depois com a dita prescrição, negou ter sido ela a receita-las.
Eu não sou contra as vacinas: cá em casa toda a gente as tem em dia e lamento imenso a tragédia que atingiu aquela família. A parentalidade não vem com manual e nem sempre o bom senso é suficiente; e o instinto paternal tanto acerta como erra.
Sou apenas uma paciente cada vez mais difícil de convencer sobre protocolos médicos e bioquímica. Na semana passada o meu marido, preocupado comigo e a caminho do hospital disse-me carinhosamente: “-Porta-te bem com os médicos, OK? Sabes que és uma paciente difícil, não sabes?” Em 2011 tive um susto com a minha saúde. Já tinha passado pelo IPO de Lisboa em 1998 (benigno e estupidamente grande) e lá voltei nesse ano. Análises para a esquerda, mieloscopia (que raio de exame horrível) para a direita e resumindo, tive de mudar de vida. Os médicos queriam outra coisa, mas eu não deixei. Um médico brilhante cruzou o meu caminho, o Dr. António Almeida. Sim, tenho uma série de condicionantes com o meu sistema imunitário;  há quem os tenha com o coração; outros com o fígado; há quem nasça com um cromossoma a mais. E há quem nasça com doenças degenerativas, se imponha como génio e venha defender a ciência das trumpices e trumpeiros dos nossos dias.
Mudei-me para o Algarve, e essa mudança substituiu a química do meu protocolo médico (com aval do único médico que me respeitou nessa altura). Esta terra é milagrosa e cura todas as nossas misérias. Daí a procura de propriedades algarvias pelos reformados abastados de outros países. Mesmo os que não se mudam para cá, passam cá meses, no nosso ameno Inverno, convencidos que levaram daqui mais uns anos de vida. E se eles estão certos!… Agora a minha contradição(zita)…
Lá estou eu de cama, apesar de estar na minha terra da cura, o Algarve. Desta vez foram os meus músculos das pernas que decidiram dar-me o aviso de overloaded. O médico que me deu a alta na passada quinta-feira disse que se chegasse a casa e cortasse um dedo com a faca do pão não ia sentir nada, tal foi a dose de cavalo de remédios que me deram. OK. Já percebi, toca a reduzir, mas não me vou embora daqui. Só hei-de ir ali à Serra Algarvia mais umas quantas vezes. Agora é cama e descanso. E uns relaxantes musculares que me põem KO. Não posso conduzir.
Mas é temporário.

Dito isto, creio que negar a ciência é uma tremenda estupidez. Somos varridos da face do planeta em três tempos. Como seres sencientes vamos aproveitar o momento da imensa ignorância trumpista. Saindo os EUA do Acordo de Paris, terá de ocorrer a mudança. Pois que essa mudança seja um win-win para humanidade e o planeta, e já agora um murro nas fuças do Mr. Donald Trump.

Escrito do alto da minha infinita ignorância. E sob o efeito de drogas prescritas há dias.