Dia da Terra: sobre o documentário “kiss the ground”

Hoje celebra-se o Dia Mundial da Terra, ou do planeta Terra. E deixada levar pelo algoritmo que controla o meu perfil na Netflix, tenho estado a tentar digerir o documentário “Kiss the Ground: Agricultura Regenerativa” que vi ontem à noite.

Caso ainda não o tenham visto, deixo abaixo o trailer que está disponível no Youtube: 

https://youtu.be/K3-V1j-zMZw

Vale a pena ver.

Basicamente o documentário é centrado na realidade dos Estados Unidos da América e aconselho a sua visualização partindo da premissa que o filme reflecte  uma realidade empresarial e uma cultura de consumo diferente da nossa.

O documentário de temática ecologista está disponível na plataforma Netflix e é narrado por Woody Harrelson, actor norte americano que teve um dos papeis principais na sitcom Cheers, Aquele Bar. Harrelson foi nomeado para os Óscares pela participação em produções cinematográficas, logo a sua carreira de actor seria bastante promissora, mas aparentemente encontrou o seu propósito de vida nas causas ecologistas. 

O documentário “Kiss the Ground” defende a urgência da mudança nos métodos de exploração do solo principalmente no âmbito da indústria agrícola, com o objectivo de contribuir com uma solução rápida para o problema das alterações climáticas. E soluções rápidas e eficientes que tenham como mecanismo de correcção a regeneração biológica parece uma solução barata e óbvia. Vários pressupostos que atestam a validade da agricultura regenerativa:

  • o carbono, essa maravilha química da tabela periódica, elemento essencial à vida na terra e personagem principal da disciplina de Química Orgânica não pode continuar a ser demonizado. A leviandade com que se fala (mal) do carbono cria uma série de más interpretações e abre caminho às perigosas teorias da conspiração, apenas comparáveis à caça às bruxas.
  • uma estreita camada superficial da terra alberga um universo imenso de bactérias e pequenos nemátodos e insectos responsáveis pela biodinâmica da terra, tornando-os essenciais à captação de nutrientes para as plantas se alimentarem e produzirem. Destruir mecanicamente esta camada, mata a terra transformando-a apenas em detritos e substrato morto e impermeável. 
  • a existência de herbívoros num terreno agrícola é desejável, mesmo os de grande porte; a contribuição com adubo natural na forma de excrementos, acelera a produção das plantas.
  • A diversidade agrícola assente na consorciação de culturas é um cheque em branco equivalente a um subsídio estatal, livre de obrigações fiscais e de garantias bancárias, que mantém a consciência tranquila e que não hipoteca o futuro financeiro nem do produtor, nem das próximas gerações.
  • A utilização de biocidas é prejudicial ao ser humano sejam eles herbicidas, insecticidas ou fungicidas. O seu desenvolvimento tecnológico está historicamente relacionado com as câmaras de gás do Holocausto. Simplesmente medonho.

 

Bem positivo, não é? Há quem defenda que este documentário deverá ser o último a ver da trilogia  “Cowspiracy” (2014, Netflix), “Kiss the Ground” (2020, Netflix) e “Seaspiracy” (2021, Netflix). O argumento a favor de terminar com este documentário é que a mensagem é positiva, a bem da nossa saúde mental. 

Entre o depressivo este mundo está perdido e o salvem as vacas, a mensagem do documentário “Kiss the Ground” deixa-nos uma mensagem mais positiva que a dos outros dois: há pessoas efectivamente a operar mudanças de mentalidades e  com consequências positivas à escala global. Os activistas deste documentário são a resposta consciente ao apelo de hoje, Dia Mundial da Terra, do secretário geral  das Nações Unidas, António Guterres: é necessário acabar com a guerra que a Humanidade tem travado com a Natureza.

Eu confesso que ainda não tive estômago para ver os outros dois documentários e não faço prognósticos. Na verdade, até tenho outra sugestão do que ver a seguir.

Imagem de Monic Heinen Diakité por Pixabay

Kiss the ground: versão portuguesa

Também a propósito do Dia da Terra, há um episódio da série de reportagens da extraordinária jornalista Mafalda Gameiro “Linha da Frente” que deve ser visto juntamente com o “Kiss the Ground: Agricultura Regenerativa”. O episódio foi para o ar no passado dia 15 de Abril e está disponível na aplicação da plataforma de streaming RTP Play. Abaixo o teaser da reportagem.

https://www.youtube.com/watch?v=-6NQoMt0FIk

Se a jornalista Mafalda Gameiro tivesse acesso ao orçamento do documentário “Kiss the Ground” talvez a reportagem ainda fosse mais a fundo na questão da agricultura (in)sustentável e na nossa teimosa burrice em ir atrás de modelos de produção industrial internacionais e desactualizados que destroem mais do que produzem, e na necessidade de equilibrar a balança entre a economia e a ecologia.

A lógica industrial parece-me bastante clara: é necessário produzir em larga escala para que o valor de venda do produto seja competitivo. Indústrias de produtos com preços de venda competitivos teoricamente geram mais postos de trabalho, mais contribuições fiscais e mais investimento. Se os produtos tiverem um preço competitivo e ainda levarem um selo de certificação de produção controlada, cumprindo rigorosos processos de análise química e biológica, os consumidores ficam satisfeitos, sentem-se seguros e logo o produto entra facilmente no mercado de consumo, de forma regular. 

E depois… é como o leite escolar: salva vidas (humanas, porque a da vaca e a do vitelo não interessam), contribui para a saúde dos ossos (só que não, mais vale distribuir brócolos, só que o único verde que os miúdos foram treinados a gostar é o do semáforo) e o governo subsidia. E o pacote vazio serve para jogar à bola na escola, já que as bolas estão proibidas. #alertaironia

Basicamente, o que eu quero dizer é que a reportagem “Linha da Frente: invasão da agricultura insustentável” cumpre um propósito – confirmar o que alguns consumidores mais piquinhas já defendem há algum tempo – e deixou-me ainda mais alerta. No particular, a situação retratada que mais me chocou foi a do casal de jovens agricultores que perdeu a certificação biológica à conta da exploração agrícola vizinha. Vidas em suspenso, sonhos destruídos, investimentos mortos e um sem fim de problemas financeiros para o resto das suas vidas.  

Pois bem, eu disse que para ver o documentário da Netflix era necessário ter em conta a realidade americana; com a reportagem da RTP ficam com uma ideia mais tuga da situação.

Não têm de quê.

Imagem de amêndoas na amendoeira. Créditos Konevi por Pixabay

Conclusões de um Abacateiro

À semelhança do que acontece com as pobres das vacas no contexto de indústria pecuária, os abacateiros têm em Portugal a infeliz carga negativa de serem um dos frutos mais demonizados da agricultura actual. 

Aqui na região do Algarve, a exploração intensiva do abacate, substituindo projectos de campos de golfe (i.e. Lagos) e alegadamente extraindo água sem qualquer controlo de aquíferos em risco, tem alimentado a polémica entre ecologistas e produtores. A discussão é apaixonante, porque se por um lado se pretende que a região tenha outras indústrias pujantes que não só a do turismo, por outro a consciência do frágil ecossistema e a importância da preservação dos lençóis freáticos ganham cada vez mais vozes activas e atentas. Há as laranjas, claro. E outro produto que goste de tantas horas de sol e que um pomar de média dimensão consiga produzir uma quantidade de dimensão considerável? Quê?! O abacate. Pois é…

A crescente literacia em temas como a ecologia, a nutrição e o modo de vida sustentável traz a público argumentos fraturantes e formas de pensar a exploração agrícola como nunca aconteceu. No documentário “Kiss the Ground: agricultura regenerativa” percebemos que à escala global, as preocupações dos consumidores são cada vez mais comuns e têm impacto quase que imediato na produção. Os truques do marketing industrial já não funcionam com o consumidor: não serve de nada dizer “coma isto, é saudável”. A proveniência conta; a pegada ecológica conta; o valor nutricional conta; e só depois é que vem o preço. E se for de moda consumir aquele produto, então o produtor está com sorte.

Nunca foi tão fácil e acessível ter uma alimentação variada, em termos de produtos hortícolas. Se o mercado não vender, plante na sua varanda. Na hora de provar, delicie-se. Se não tiver uma varanda e consigo até os cactos morrem à sede?! Compre no mercado local, fale com o vendedor. Ou compre no supermercado, mas leia os rótulos e decida. 

E celebre o dia da Terra: hoje e sempre.

Feliz Dia da Terra.

Imagem de congerdesign por Pixabay