A minha horta da pandemia

Eu tenho uma horta que é o resultado do primeiro confinamento da pandemia que vivemos actualmente. Foi a minha libertadora e a minha terapia contra a loucura que se instalou em todo o mundo no primeiro trimestre de 2020, à conta da COVID-19. Inicialmente tinha pensado nuns vasinhos de aromáticas e nuns pés de morangos. Setecentos litros de terra depois (vezes dois), nasceu a minha horta da pandemia, ou melhor, o meu jardim comestível. 

O início

Eu gosto de verde. É a cor associada à esperança e quanto mais viva e escura, mais vontade de fazer coisas positivas provoca em mim. Mas como sou uma pessoa de contraditórios e não gosto de começar por onde toda a gente começa, comecei pelo fim. E o fim é o lixo.  

Numa volta higiénica “ali” ao Leroy Merlin do Mar Shopping Loulé deu-me uma febre consumista e comprei um compostor. E sementes de pepino, curgete e tomate. E a caminho da caixa agarrei também num saco de substrato biológico. E nuns tabuleiros de sementeiras, numas minitabuletas de jardim… Portanto, se calhar gastei tanto no Leroy Merlin como vocês em papel higiénico no Continente, algures em Março de 2020.

Depois de desinfectar as compras, lá fui eu para as minhas traseiras, toda contente, montar o meu compostor de exterior. Ficou junto à rede, perto da porta da cozinha. Depois da montagem, compilei uma série de informações sobre o que por e o que não por num compostor: cascas de ovos, cascas e pés de legumes e frutas, borras de café e lixos de podas e da limpeza do espaço exterior, sim;  desperdícios das refeições, nem pensar.

Curiosamente a quantidade de lixo orgânico cá de casa diminuiu drasticamente. Ou seja, com o início da pandemia, conseguimos um feito inédito: diminuímos a quantidade de lixo produzido pela nossa família. 

Em Março de 2020 vimos pessoas normais a perder o juízo e comprar papel higiénico. Eu como não sou normal perdi o juízo com um compostor.

Vasos, vasinhos e camas sobrelevadas

Despachado o início, joguei-me aos começos da horta da pandemia, ou do meu jardim comestível. Estava eu a planear os vasos, vasinhos e as floreiras no espaço exterior das traseiras da nossa casa quando o H. veio me perguntar como estava a correr o projecto horta. Eu disse-lhe que ia fazer uns vasos com umas tomateiras e umas floreiras com curgetes e pepinos e percebi logo que o meu projecto ia ser chumbado. A ML já tinha posto uns feijões secos a germinar em algodão (coisas da escola) e eu tinha distribuído umas quantas sementes pelos  tabuleiros de sementeiras.  Uma semana depois de por as sementes à terra, começaram a sair uns fiozinhos tímidos verde-pálido em direcção ao sol. 

Na altura da reunião dedicada aos vasos, estava eu também a braços com a mão implacável da mãe-natureza. Com o calor algarvio vieram os mosquitos, essas armas de destruição maciça e vectores das mais infames doenças que assolam a humanidade. E eu tive uma ideia genial para combater a sua propagação, evitando as águas acumuladas nos vasos: virar os pratos ao contrário. 

Certo?

Formigas: as aliadas do H. no chumbo da rubrica vasos, vasinhos e floreiras para a nossa horta da pandemia

Errado! TODAS as formigas da freguesia de Quarteira, de Almancil a Vilamoura, decidiram montar os seus formigueiros debaixo da minha colecção de vasos. Eram milhares de formigas à solta, que por vezes contornavam as montanhas de sal grosso que eu  colocava a fazer barreira na porta da cozinha, e que de volta e meia faziam investidas aos nossos armários despenseiros. Desde então guardamos o frasco do mel num balde vazio de cinco litros de tremoços, com a tampa sempre bem fechada.

 

As formigas foram o sinal da natureza que tinha mesmo de acabar com os vasos , dar ouvidos ao H e jogar-me ao pinterest à procura de inspiração. Em vez da horta da pandemia ficar em vasos, vasinhos e floreiras, tive de tomar outro rumo, mais demorado e trabalhoso. Na reunião de direção doméstica que se seguiu ficou decidido que iríamos optar por fazer a horta da pandemia em camas sobrelevadas. Os vasos tinham os dias contados.

Jardim comestível de alguém que não eu. Imagem de congerdesign por Pixabay

Horta em camas

Eu podia chamar-lhes canteiros, caixotes ou armações em madeira. Mas da mesma maneira que a nossa horta doméstica da pandemia se chama jardim comestível, os nossos canteiros chamam-se camas sobrelevadas. Chique a valer! É a moda das hortas urbanas e toda a gente sabe que eu sou uma mulher de modas (só que não).

Com a derrota pesada vasos-nem-pensar e a minha dignidade devorada pelas formigas algarvias, apaixonei-me pela ideia das camas sobrelevadas. O H. foi ao Leroy comprar material: quatro tábuas de dois metros, quatro tábuas de um metro e trinta, oito estacas e tinta verde para madeiras de exterior. O serviço de corte de madeira foi o nosso aliado, já que as tábuas se vendem inteiras. O planeamento das camas sobrelevadas teve em conta o espaço disponível nas minhas traseiras e a necessidade de deixar espaço para três corredores, junto aos muros laterais e no meio das camas.

O que veio a seguir foi uma aventura surreal de vários dias. Num dia pintámos as tábuas e as estacas que à conta da humidade do mar levaram mais tempo a secar do que o previsto. Duas de mão de tinta, secagem e depois a montagem; Três parafusos em cada extremidade; Estacas colocadas no interior dos cantos e tinhamos camas sobrelevadas para a horta da pandemia, o jardim comestível. 

No final da montagem liguei ao meu pai:

– Olá pai! Montámos duas camas no exterior!

– Mas tu não tinhas já espreguiçadeiras?! São para as meninas?- perguntou-me ele.

– Não! São para a horta!…

– Lá estão vocês a inventar…

Uma vez que as camas iam ficar em terreno inclinado, pensámos nas estacas nos cantos para enterrar as pontas e assim evitar percalços, como um eventual  deslizamento do nosso jardim até à praia de Quarteira ( não exageremos, mas até ao jardim do vizinho é uma hipótese realista). Portanto, depois das pinturas e montagens, virámos as camas ao contrário e jogámo-nos às enxadas, para abrir os oito buracos. Só que o terreno é muito duro (cheguei a insinuar que talvez alugando um martelo pneumático resolvíamos o problema) e tivemos de improvisar. Resumindo, as camas ficaram com as pontas para cima, com o intuito de servir de amparo para plantas trepadeiras, para prender a rede guia, etc.

Depois fui buscar o tal saco de substrato e 20 litros que deu para fazer um montinho de terra junto a uma das estacas. 

Vinte litros de terra não iam ser suficientes.

Houston, we have a problem. 

Tábuas de pinho para as laterais das camas
Estacas para os cantos das camas

Terra e pés de coisas

Um conselho matrimonial que vos dou de borla: numa situação em que o vosso H. tente ajudar-vos com um excelente conselho, nunca lhe digam qualquer coisa equivalente a “eu bem disse que devíamos ter ficado pelos vasos, vasinhos e floreiras” depois de se jogarem os dois em equipa a planeamentos, compras, montagens, berbequinzagens e preparações de duas camas sobrelevadas com a capacidade para mais de 700 litros de terra. 

Foi preciso uma carrinha de caixa aberta, um terreno de um parente com uns pinheiros e muitos litros de substrato vegetal para encher as duas camas. Como os ginásios tinham fechado, fizemos o equivalente a umas quantas aulas de cárdio e treinos levanta-ferro, nos vai-e-vem com baldes de 20 litros de terra em cada braço a descer escadas e a contornar a casa, porque as minhas traseiras não têm acesso directo à rua. A meio do processo ainda me lembrei que um carrinho de mão tinha poupado umas quantas viagens. Só que depois do mau resultado da minha tirada “eu bem disse…” achei melhor deixar a ideia-da-idiota para o fim e continuar com o exercício físico, já que a cobrança das mensalidades do ginásio estava suspensa. Quem me conhece, bem sabe que no final acabei por dizer “ainda me lembrei que um carrinho de mão talvez tivesse dado jeito, mas achei melhor ficar calada”… e o resultado foi muito semelhante ao do “eu bem disse que devíamos ter ficado pelos vasos, vasinhos e floreiras”. 

Sou casada com um santo cuja careca sexy e os cabelos brancos são da minha inteira responsabilidade.

 

Planeamento precisa-se, mas eu gosto é do improviso.

A dada altura, com todo este faça-você-mesmo (DIY), o tempo foi passando e os tais fiozinhos verde pálido transformaram-se em pés de pepinos e curgetes. Os tabuleiros de sementeiras tiveram de ser substituídos por vasos. E nessa altura já eu estava com um problema de substrato.  E do que é que eu me lembrei?! Fui ao compostor e tirei umas quantas cascas de banana e batata e borras de café colocadas no dia anterior e enchi o fundo do vaso para colocar os pés de curgete; acabei de encher o vaso com substrato de compra e transplantei os pés de curgete. Passados dois dias, os pés começaram a morrer e o cheiro junto aos vasos era nauseabundo: matei os pés de curgete com acumulação de gases no vaso. 

Talvez um dia venha a ter uma jazida de gás, com esta minha fórmula mágica que só precisa de uns milhares de anos para produzir gás em quantidade. 

Além de minha libertadora em tempos de confinamento esta horta da pandemia já libertava muitas coisas, antes sequer de existir. Foi um soltar de gases nauseabundos, tipo um traque do pior, como quando os nossos filhos têm aquela gastroenterite contagiosa que coloca toda a família a pintar à pistola e a perfumar o ambiente doméstico. Bem hajam, janelas de casa de banho.

 

Pé de curgete. Imagem de Antonio Jose Cespedes por Pixabay

O meu jardim comestível

Várias semanas depois do início do projecto horta da pandemia, as plantas puderam finalmente ser transplantadas para as suas maravilhosas camas sobrelevadas bespoke. A ideia das camas sobrelevadas é genial: em vez de passarmos um tempo doido de joelhos a limpar ervas ou a transplantar plantas, sentamo-nos num banquinho ou na lateral da cama e conseguimos confortavelmente fazer as tarefas de manutenção, sem maltratar joelhos nem costas. As camas sobrelevadas têm imensas potencialidades, uma vez que permitem a plantação em terrenos contaminados, desde que seja colocada uma barreira impermeável entre o solo contaminado e o solo para as plantações. No caso do meu jardim da pandemia, como não há registo de indústrias pesadas por perto ou campos de golfe ao virar da esquina, as camas são abertas no fundo, permitindo a troca de micro-organismos e nutrientes necessários à saúde do substrato.

Várias coisas ficaram para outra altura de montagens, como um sistema de rega gota a gota para o qual já tenho algum material. De volta e meia fico literalmente a babar junto aos computadores de rega no Leroy Merlin, mas ainda não me convenci por nenhum. Tenho por baixo das goteiras das varandas uns baldes onde recolho a água da chuva e que vou reutilizando na rega; mas no pico do Verão de 2020, com a seca grave de que fomos vítimas, várias vezes tive de recorrer à rega por mangueirada. Mesmo assim,  aquantidade de água consumida para regar a horta da pandemia deve ter ficado bem abaixo da usada na piscina insuflável do verão anterior. 

Os pés de pepino ocuparam um espaço gigantesco cada um e as tomateiras deram poucos tomates. Com as aromáticas fiz batota: fui ao LIDL e comprei tomilho, hortelã, cebolinho, salsa e coentros envasados e transplantei-os. Os meus sogros trouxeram-me uns pés de espinafres e de volta e meia vou ao mercado de sábado comprar pés já germinados de alfaces e cenouras ou de couve-flor e de brócolos. 

Já apanhei um fungo numa unha e aprendi a nunca mais mexer na terra sem luvas. As aranhas são minhas aliadas e as porcas-sara também.

Também já percebi porque é que o meu avô Armando ficava tanto tempo a olhar para o infinito. Quando se planta e se colhe, o tempo tem outra velocidade e o verde não é só um. E se olharmos com atenção e tempo, do verde tímido do broto até ao verde escuro da planta fértil há um sem fim de verdes e de tempos que nos libertam de todas as tensões, dos medos e das incertezas desta maldita pandemia que teima em nos prender em casa.

Eis uma das camas sobrelevadas da minha horta da pandemia, do meu jardim comestível e da minha terapia contra a loucura dos tempos.

Momento da transplantação dos pés de pepino que resistiram às minhas experiências loucas. As flores nas floreiras e o pé de jasmim deram uma ajuda preciosa na atracção de polinizadores. Fotografia do H.

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