5 mandamentos para pais Wi-Fi

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Em Janeiro a escola voltou a fechar por conta da pandemia e os nossos miúdos tiveram de se voltar para os ecrãs: computadores, telemóveis, tablets e televisões. Até porque os pais ficaram em teletrabalho e os miúdos tiveram de se entreter de alguma maneira. Portanto, de uma posição de assassinos de neurónios infantis, os telemóveis, tablets e televisões foram promovidos a acessórios educativos.

Quando se iniciou o processo do ensino à distância – e na escola das minhas filhas houve uma fase prévia que alguns professores decidiram implementar – foi com imenso orgulho que as vi partilhar todas as dicas e soluções com alguns colegas em dificuldades com a tecnologia.

Depois de uns tempos de incerteza, o ministério da educação lá conseguiu fazer com que a escola retomasse o seu curso. Cerca de um mês depois do início do confinamento chegou o Salvador: essa figura mítica directamente relacionada com a salvação – o magnífico, o inefável, ooooooo Ensino à Distânciaaaaa!!!

E lá se vieram estreitar as relações dos nossos filhos com a tecnologia. O êxtase e a loucura apoderaram-se dos pais Wi-Fi.

Oh Sílvia, mas que raio: estreitar relações entre humanos e máquinas?! Mas o SARS-COV2 já começou a comer-te o cérebro?

Que eu saiba não.

Mas senti-me inspirada para pensar nuns quantos mandamentos para salvar a Humanidade (a humildade tem andado fugida por aqui). Por isso, vou partilha-los convosco. Chamei-lhes mandamentos porque são mesmo limites intransponíveis. Acompanham?

Imagem de Bob Dmyt por Pixabay

Primeiro Mandamento: assumir o tempo em que queremos viver

Imaginem que já podem viajar no tempo e no espaço e dão um salto até Lisboa do início da segunda metade do século XX, prestes a ver iluminado interior de cada lar. Vá, talvez seja possível ir a uma biblioteca (depois do confinamento)  ou talvez passar ao de leve pelo assunto aqui.

Hipoteticamente aterraram na década de 1950 ou 1960 e têm de tomar a decisão como “chefes de família” de uma qualquer família abastada de Lisboa e a opção é clara:

– A eletricidade na minha casa não entra! 

-Nós gostamos muito do cheiro de óleo queimado para ter uma luzinha tremeluzente. E dá-nos uma excitação orgásmica não saber quando é que a casa vai pegar fogo pela lamparina mal apagada.”

Pois… é só estúpido, não é? Eu pessoalmente acho que é.

A era digital iniciou-se na mesma altura em que a eletricidade entrou pelas casas dos lisboetas adentro e apanhar o andamento do digital ou deixar-se ficar é uma opção de vida, como qualquer outra. Voltar às origens, viver isolado da sociedade é uma escolha de vida tão válida como viver numa grande cidade em qualquer parte do mundo; são os tempos em que vivemos e a sociedade actual não pode obrigar-nos a tomar decisões que vão contra as nossas ideologias.

Decidir por deixar-se evangelizar ou não pela internet e pelo Wi-Fi torna-se ligeiramente mais discutível quando temos filhos. E essas opções de vida não se tomam de ânimo leve. A parentalidade muda-nos e muda os nossos horários, as nossas opiniões e as nossas prioridades. Se acreditam que não mudam, das duas uma: ou ainda não têm filhos ou talvez esteja na hora de refletir um bocado sobre a diferença entre ter um filho e comer um gelado. E perceber os sinais dos tempos, vivendo a vida de acordo com a era actual parece-me ser o mais acertado.

Imagem de Jakub Luksch por Pixabay

Segundo Mandamento: perceber o que ter liberdade de escolha implica

Cabo da Roca, Portugal 

Imagem de Jan Zimola por Pixabay

Para quem pode e está a ler este texto, optar por negar a entrada da era digital na vossa vida é praticamente o mesmo que se deitarem a nado do cabo da Roca em direcção aos EUA, na expectativa de pararem o tempo. Tenho quase a certeza que alguém já tentou e não funcionou. Se funcionasse, a indústria da cosmética já tinha falido. Mas lá está, ainda têm a liberdade de escolher jogarem-se a nado do Cabo da Roca.

Só não contem comigo, OK? Eu não sou lá grande fã da temperatura média do Oceano Atlântico.

A história da sua vida e das suas opções é simples: ou entrou na era digital ou ficou para trás. Se ficou para trás, não tendo sido uma opção consciente, essa realidade só se verifica em duas situações: ou a da ignorância ou a da miséria. Mas isso é um assunto complexo, para outro artigo.

Pois, eu sei… estamos tramados com esta coisa da liberdade de escolha. E vivemos um tempo excitante com ela. Talvez a venhamos a perder num futuro próximo (espero bem que não, mas vou deixar as minhas opiniões políticas para outros artigos). Por exemplo, a liberdade de escolha não nos permite evocar a ignorância para nos safarmos das consequências das nossas opções conscientes.

Resumindo: invocar a ignorância como culpada pelas coisas que correm mal já não é suposto funcionar como desculpa, mas pode sempre tentar “atirar com o barro à parede”. E mesmo a resposta “ninguém me disse nada” já não cola em lado nenhum. É como aquela mãezinha que diz que o filho não tem acesso à internet enquanto ele está ali ao lado a consultar o facebook no seu próprio telemóvel.

Quanto à navegação no trio bicudo da liberdade de escolha, da internet e dos nossos filhos, a única orientação que podemos adoptar é a do discernimento e do bom senso. E já agora só partilhar informação fidedigna é uma obrigação dentro da liberdade de cada um.

Terceiro Mandamento: relativizar o valor dos equipamentos

As crianças cá de casa nunca viram as máquinas, os telemóveis e os demais aparelhos eletrónicos como cristais Vista Alegre ou peças de museu.

Em 1980’s…

Eu fui criança numa altura em que se frequentava nalgum momento bizarro da infância a casa de alguém que tinha ou uma vitrine com cristais Atlantis ou jarrões imponentes de porcelana chinesa (privilégio nhonhó; sim, eu sei). Havia o serviço de jantar de festas e a loiça da cozinha. Cheguei a frequentar a casa de uma colega que vivia no sótão e que no rés-do-chão apresentava a casa onde seria suposto viver: “– Este é o meu quarto, mas eu não durmo aqui.” Hoje em dia é uma mulher realizada e uma mãe espectacular com uma casa de sonho num bairro chiquérrimo de Lisboa.

2021: procurem as diferenças

Os miúdos levam IPhones para a escola e está tudo bem. Numa tentativa frustrada de não emitir juízos de valor sobre o assunto, partilho convosco que as minhas filhas têm direito a telemóveis e tablets em segunda mão e eu acho que assim é que está certo. Vender a alma ao diabo e assinar contratos de crédito até ao ano 2180 para a criança ter um equipamento eletrónico nos dias que correm não me parece muito razoável.

As coisas, os objectos e o dinheiro só têm o valor que a gente lhes atribui. Façam as vossas opções de acordo com os vossos orçamentos familiares, o nível de liberdade de escolha de cada um e o nível de responsabilização dos vossos filhos que acharem mais apropriado. Afinal de contas, se o telemóvel bugar, eles podem decidir jogar com ele à parede. E culpar as hormonas.

Se o valor do equipamento e o seu fim de vida estiver devidamente enquadrado na vossa vida, eu acho que está tudo bem.

Imagem de fancycrave1 por Pixabay

Quarto Mandamento: estabelecer os limites

Limitar as criancinhas… Ui… Então nesta altura em que tanta gente lhes atribui a taça dos verdadeiros heróis da pandemia, porque ficaram fechadas, porque deixaram de poder ir ao Cais do Sodré beber um copo (isto já sou eu a sofrer por antecipação), porque ficaram sem os treinos de futebol e de natação, ou porque tiveram de nos aturar semanas a fio, vinte e quatro horas por dia (e aqui só estou eu em autocomiseração)… As crianças são uns heróis sempre e não podia haver assunto mais tabu do que este dos limites.

Imagem de Omar González por Pixabay

Porém, para quem ainda não sabe mas vai ficar a saber um dia, os nossos filhos têm de ter a noção dos limites. Do género: a escola é obrigatória e tens de comer e dormir de acordo com as tuas necessidades. No tempo que sobra do teu dia podes olhar para o telemóvel.

Se nós (pais) não pensarmos no assunto e agir de acordo com alguma noção da realidade, é o mundo à força bruta que se encarrega da lição, e não vai ser bonito. E sabem a quem é que eles vão vir pedir satisfações um dia mais tarde?!

Sim, senhor: temos a obrigação de os manter a salvo de qualquer perigo e de salvaguardar os sonhos e a infância dos nossos filhos. Mas vou apenas referir uma realidade super actual: na pré-escola os nossos filhos falam da morte. Cá por casa quando nos demos conta do conteúdo programático em questão, achámos muito bem, principalmente quando o tema começou a saltar em perguntas bombásticas tipo pipocas ao jantar. Mas ainda hoje os avós acham que falar de morte com crianças devia ser proibido. Não estou a falar de banalização, nem de desenhos catitas de coisas horrendas; Estou a falar na facilitação em comunicar emoções e vivências. Eu conheço uns quantos adultos com esse problema de comunicação. E é um problema que dá origem a muitos problemas de comunicação, principalmente nos dias que correm. E os limites vão variando com o tempo em que vivemos.

A pandemia veio por em causa a saúde mental dos nossos filhos. A nossa já foi pelo esgoto: ou quando pregámos aquele grito da expulsão da criatura pela vagina abaixo ou quando pensámos que seriamos capazes de lidar com o teletrabalho e a telescola. Mas vamos todos vivendo e aprendendo, umas vezes com mais noção dos limites, outras vezes nem tanto.

Quinto Mandamento: promover a confiança

Limites e confiança. Sim: é tipo ser equilibrista com tendência para cãibras nos membros inferiores.

Por experiência própria digo-vos que confiscar o telemóvel e pregar um par de gritos nunca resulta bem, quando os petizes aprontaram feio na net; ou com a conta do telemóvel; ou quando estão a usar o carregador da irmã…

O lado positivo do mandamento da confiança ao sermos pais em 2021 é que ao contrário do antigamente, não vale a pena tentar seguir o modelo do pai autoritário. Não vai correr bem para ninguém e a CPCJ pode aparecer-vos à porta, não por causa do pedófilo que meteu conversa no chat com os vossos filhos, mas porque há uma queixa contra vocês. Com provas filmadas com o tal telemóvel que poderia ter sido confiscado.

Os miúdos contornam sempre as proibições e arranjam outro telemóvel emprestado, artilhado ou oferecido pelos avós. Portanto, do cenário anterior, só vale mesmo a pena pregar um par de gritos. Ou berrarem baixo, se for o vosso caso de parentalidade assumida (as vossas cordas vocais agradecem).

Sabem aquela máxima de que a confiança se conquista? Com os filhos é igual e é bidirecional. É connosco que eles descobrem a diferença entre o bem e o mal e é imperativo arranjar tempo para explicar ou demonstrar os benefícios da preservação e da utilização responsável de um determinado equipamento eletrónico. É como os livros de escola de antigamente que as nossas mães guardaram religiosamente: têm de ser preservados e de volta e meia ainda dão para fazer reset-reboot, 30 anos depois.

Confie e oiça o que o seu filho tem para lhe dizer, para lhe perguntar e principalmente para lhe mostrar, vai ver que a aprendizagem é valiosa para ambos. Afinal de contas é impossível saber tudo sobre essa relação simbiótica entre as crianças e o WiFi. A primeira vez que fomos para um sítio sem rede de telemóvel  a nossa mais velha ia precisando de assistência médica de emergência. Lá lhe explicámos que as nossas avós nem eletricidade tinham e ela do alto da sua ironia herdada geneticamente perguntou se gostámos de conhecer os dinossauros.

Este último mandamento é no entanto o mais melindroso. Confie no SEU filho, não confie no equipamento eletrónico.

Alerta referência a filmografia: lembra-se dos Gremlins? Ou do Jumanji? 

E se eu lhe disser que este bebé fofo à noite se transforma num monstro que vem roubar a sua criança? Ou os seus dados bancários? Resumindo: e se aquele amigo dos jogos for alguém a passar-se por quem não é?! 

Imagem de GimpWorkshop por Pixabay

A segurança online é praticamente uma miragem para adultos, imagine para crianças. Com a pandemia a realidade tornou-se ainda mais virtual: as crianças em idade escolar fizeram horas a fio de Classroom e de trocas de emails com professores de Abril a Junho do ano 2020. E pensem lá quantas crianças de colo é que conhecem que não tenham já feito uma qualquer videochamada nos últimos meses? Temos é de precaver o perigo que anda aí e usar a internet tem que ser uma actividade em que a segurança é uma responsabilidade de todos. É caminhando pelo passeio do lado esquerdo, de frente para os carros que se circula em segurança, a pé, na estrada. De volta e meia, falta o passeio (vá à Junta de Freguesia reclamar) ou um carro está mal estacionado e os moços jogam-se à estrada, para continuar o seu caminho. Se houver confiança, talvez contem o que se passou quando chegarem a casa.

Não vão proibir a criança de ir à escola, por causa do perigo dos carros, pois não?

Proibir a criança de perguntar coisas ao Google só vai fazer com que ela o faça na mesma e não tenha confiança para lhe contar o que descobriu, que tanto pode ser um facto super giro sobre os dinossauros, como um site de pornografia.

E nas vossas casas, como é que vivem a Parentalidade Wi-Fi?

Fonte da imagem de cabeçalho do artigo:

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