A realidade aumentada cá em casa

Nós somos uma família de geeks. Os quatro.

Podíamos até ser mais um bocadinho, mas a carteira não dá para tanto. Vou dar um exemplo muito prático: uma das tomada TV cá de casa está num lado da sala e a televisão está no outro. Como é um ecrã plano não dá para por a plantinha com naperon em cima (!)

Vá, a televisão até tem uso. Não é para tanto.

Eu, o H. e a ML arrancámos o cabo telefónico e passámos o cabo de rede pela casa toda (bem feitinho, por dentro das paredes com cabos guia). E a televisão funciona normalmente: com uma Android TV box, um switch e um Chromecast. Eu raramente a uso; Mas as minhas filhas usam bastante, principalmente com Youtube e Netflix. Nos últimos dias tem tido algum uso também dos adultos da casa com o Star Trek e o Orphan Black (ainda não cheguei ao último episódio).

Ao fazer o jantar geralmente com a Bimby (que já tem mais de oito anos) o tablet vai me actualizando a realidade, com canais que subscrevi no Youtube ou com a aplicação NOS TV. A regra nessa altura do dia é fazer actualizações com video-chamadas com os avós que estão em Moçambique, via WhatsApp. O Skype perdeu pontos connosco.

Quando preciso de reconstruir algum dia de trabalho, para saber ao minuto quanto tempo estive em determinada propriedade, consulto o meu histórico no Google Maps. Já que “eles” teimam em saber tudo sobre a minha vida, eu opto por usar a informação recolhida “por eles” para meu próprio proveito. Trabalho com plataformas e apps para tudo: o Toggl, GoogleS, Dropbox, Asana e as redes sociais estão sincronizados em todos os meus aparelhos. As automações estão todas ligadas nos backoffices. Tenho a app da Uber instalada no meu telemóvel, mas ainda não me servi dela. Não faço a mais pequena ideia como é que num futuro próximo vou ouvir os CDs das estantes do quarto ali ao lado (neste preciso momento estou a usar o Spotify).

Não tenho um smart watch porque não uso relógio e a carteira não deixa. O telemóvel anterior respondia melhor ao “OK Google”. Este tem um processador ranhoso, mas é dualsim, e mais uma vez a carteira não permite ir para algo mais arrojado. Conheço também quem levante dinheiro no multibanco sem cartão, mas eu sou terrível com passwords, teimo sempre em fazê-las alfanuméricas para segurança. E uso as apps Authenticators, confirmações em dois passos, etc.

As minhas filhas lidam bem com a tecnologia. A ML agora anda com o meu antigo telemóvel, sem SIM e apenas ligado ao Wi-Fi. O telemóvel não vai para a escola e está quase sempre debaixo do nosso olho. A J. ainda gosta de um tesourinho tecnológico histórico cá de casa: o piano Clavinova, artilhadíssimo com ritmos, as três (!)  pistas de memória e os cerca de cem “instrumentos” que imita. Um dia destes vamos ter de lhe explicar para que serve a entrada de cartuchos. Ou as pen drive que também devem estar à beira da extinção, não tarda nada. No Jardim de Infância quiseram ensinar-lhes “informática”. Achei provinciano, para além de totalmente desadequado. De alguma forma defendiam que tratamento de texto era informática… Se ainda fosse programação… “Deixem-nas brincar na rua, desenvolver o conhecimento do mundo e inventar histórias em movimento” foi o que defendi na altura.

Ainda hoje aprendi com elas um truque qualquer do Youtube!

Ia fazê-las aprender a fazer tratamento de texto?!

Quê!?

Há dias a pequena J. durante um minuto ao jantar pregou-me uma partida inocente: ao utilizar as animações das fotografias do facebook no meu telemóvel, partilhou uma delas. Ela própria muito aflita lá me veio dizer que fez qualquer coisa de mal. Apaguei a obra de arte, mas passado poucos minutos recebi uma IM de um amigo a acusar a recepção de uma imagem de uma menina com um gato espantado. Como se não bastasse toda uma realidade humana, agora temos de lidar com a realidade aumentada! Com este episódio acrescentou-se mais um ritual sagrado e giro aos nossos jantares: comer, contar o dia e “brincar com as carinhas” no telemóvel da mãe e do pai.

Eu adoro a realidade aumentada: a geek em mim acha as orelhas e o focinho de gato um verdadeiro enhancement nas minhas fotografias de perfil. Não conto aderir ao extremo do Neolotionism, pelo menos para já… talvez em 2025 seja capaz de repensar a minha posição…

Durante algum tempo tive ligadas apps de controlo parental nos aparelhos. E vou voltar a ligar, por razões óbvias. Há sempre uns jogos e uns desafios que uns youtubers fazem; Ou uns roubos de fotografias nas redes sociais. Há dois anos pedi ao ao meu pai para apagar do facebook dele as fotografias das netas, por razões de segurança. E neste Verão houve um workshop promovido pela associação de pais da escola sobre segurança na internet. Não fui, mas calculo que valeu a pena. Temos de estar todos atentos e fazer os nossos filhos acreditar que podem falar connosco sobre o que os faz felizes e o que lhes possa parecer estranho e incómodo; não desvalorizar nada e transmitir-lhes segurança. Não os podemos proteger para sempre e cabe a nós pais prepará-los para a vida. Creio não estar muito enganada que hoje e no futuro ser youtuber é o equivalente a ser jogador de futebol: quem é muito bom e trabalha para isso, ganha uma fortuna a fazer o que adora. Mas nem todos os craques da bola lá chegam, essa é a dura realidade.

Cá em casa vamos continuar a acarinhar as geekices, porque o mundo é para ser conhecido e vivido confortavelmente e não para apenas viver uma vida com medo da realidade, seja ela “real” ou aumentada.

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